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O pop é Gaga

Postado em 26 de Maio de 2010 por Nivandro Vale

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Não tem jeito, só dá ela.  Aonde você for, a bola da vez é a musa kitsch, a exagerada e tresloucada Lady Gaga. No mundo virtual, ela é soberana absoluta do mundo pop.

Na vertiginosa carreira da diva, tudo é rápido, astronômico, estratosférico. De ensaios em glossies de moda à propaganda de make-up ao lado de sua maior musa Cindy Lauper. De líder em vendagens de álbuns a recordista de acessos no mundo virtual. Gaga acaba de bater mais uma marca que nem Madonna em quase de 30 anos de carreira conseguiu bater: ela é a primeira artista do mundo a ter mais de 1 bilhão de acessos a seus vídeos com somente 2 anos de gravação do seu primeiro álbum. Seus fãs vem dos mais díspares estilos de música. De Alice Cooper à Beyoncé, até a própria Madonna já se declarou sua fã.

Mas o ponto que chamo atenção para os leitores do Blog do Chez, é ainda essa cerca chamada preconceito, especialmente aqui em nossa província. Coisas que já ouvi sobre a artista:

-É coisa de gay!

- Parece um traveco!

- Credo: Deus me livre. Ela é pop!

- Só quer imitar a Madonna!

Pergunto:

- E qual seria o problema se fosse coisa de gay? Seria um defeito, uma coisa condenável?Basta olhar para o mundo do rock e ver a contribuição que os assumidamente gays já deram para o mesmo: de Little Richards a Rob Halford (do Judas Priest), passando por Fred Mercury do Queen, Perry Farrell do Jane’s Addiction,  até o mais brilhante da geração mais contemporânea de compositores: Brian Molko do Placebo. E se você for falar em Brasil, dois dos nossos maiores poetas do rock eram assumidamente homossexuais (Renato Russo e Cazuza). Então que bobagem careta é essa? O pior é constatar que eu não to falando somente de tiozinhos e de vovozinhas, tô falando de adolescentes que incham o peito para exibir sua homofobia orgulhosamente. O que é isso meninada? Cadê a naturalidade e o respeito em aceitar a orientação sexual do outro? Logo dessa geração essa postura trincheirista e antiquada!

- E se fosse travesti? Qual seria o problema também? Quer perder o preconceito? Se permita ouvir o vocalista da maravilhosa, incensada e cultuada banda indie Anthony and the Johnsons, o transexual Antony Hegarty, e me diga se consegue sustentar o preconceito ouvindo as suas grandes melodias, letras perturbadoras e inteligentes e interpretação comovente. Ouça “hope there’s someone” ou “If it be your will” (da lenda viva, Leonard Cohen). Então, vamos focar no talento, o resto é acessório. Não interessa a orientação sexual de quem faça o som, se falar pra alma e fazer a vida mais suave, já valeu a pena.

- E desde quando ser pop é demérito? (aliás, o que é pop? e o que não é pop?). E de que pop você está falando? Do pop descartável que é mero produto de massa, onde artistas sem nenhum talento, no máximo com uma boa voz e um belo corpo, são produzidos, empacotados e vendidos como pipoca na entrada do cinema, normalmente para adolescentes que estão na fase de pensar pelos hormônios, sem nenhum senso crítico ainda desenvolvido? Ou você está falando daquele conceito agregador de arte, formatado definitiva e brilhantemente pelo Fab Four?(Os Beatles) conceito esse que permite que um artista possa assimilar de todos os estilos e acrescentar a sua leitura, sua personalidade musical. É importante que se faça essa distinção para não colocar na mesma panela grandes artistas, mesmo novos, como Justin Timberlake e garotos bonitinhos e de melodias e letras bobas como Jonas Brothers.

 

Lady Gaga segue à revelia desses preconceitos e rótulos todos usados  para descrevê-la e entendê-la. Mas, preste atenção, no meio daquele make up todo, daquelas perucas, do figurino de drag queen, não se iluda, ali tem neurônios e bate um coração de uma artista que tem algo pra dizer, principalmente naquilo que é mais importante em um produto artístico: a própria arte em si, no caso dela: Música. E tenha certeza: ela conhece e sabe fazer o que faz. Gaga canta muito bem, toca, sabe compor e vem de uma escola de formação musical bem eclética que vai dos refrões ganchudos da escola Beatles, o glam rock de Bowie e Marc Bollan (atenção: em nossa ilha o “movimento” glam é várias vezes confundido com hard rock) ao synth pop dos anos 80, passando pelo rock calcado no blues dos anos 70 e chegando as programações e mixagens dos grandes DJs da cena Européia. Tudo isso somado a muita personalidade. Duvida? Então ouça Gaga cantando duas de suas próprias canções: a pérola pop “brown eyes” bem construída e com letra de quem tem sabe que não basta rimas bobas e banais para se fazer uma boa canção ou “speechless”, com sua letra arrasadora, emulando o melhor da escola dos grandes compositores que sabe falar de amor sem ser piegas demais, que até pouco tempo atrás tinha por grande representante a outra louca de pedra, a junkie e excelente Amy Winehouse, até ela cair no clichê de “artista bom é artista chapado”. Espero que Amy se encontre e volte a fazer o que sabe fazer como poucos: música.

Gaga promete. Mas isso não nasceu da noite pro dia. Nascida Stefani Joanne Angelina Germanotta, ela se preparou para chegar lá, estudou música, tocou muito em bares nas noites de Nova York, até criar o interessante personagem que a levou ao estrelato (não que isso seja novidade, Bowie já fazia isso há 40 anos). Se o personagem de Gaga vai resistir à prova do tempo, só o mesmo vai dizer. Se ela aprender a lição de Bowie, que é inquieto demais como artista para ficar se repetindo, uma hora ela vai cansar do personagem, como ele fez, e ai è que a porca torce o rabo, (aliás, que rabo...) é aí que a drag quebra a plataforma. Esgotado o personagem, vamos ver o que sobra para oferecer, para criar. Tem muita gente que continua aí com o mesmo personagem, chatos de plantão tocando a mesma música do mesmo jeito há 30 anos e virando sir. Espero que ela não caia nessa.

Comparações com Madonna não faltam, da postura transgressora e performática no palco, à capacidade de criar polêmica para promover seus álbuns (vide a última que circula na net afirmando que ela é hermafrodita). Convenhamos que isso não é novidade para os amantes do rock como eu e você. Rolling Stones, Led Zeppelin, Beatles, todo mundo fez uma polêmicazinha para chamar a atenção para o que queriam. Its also business baby! Mas as comparações param por aí. Apesar de demonstrar talento e personalidade para uma carreira consistente, Gaga vai ter que usar muitas perucas, muitos visuais entre o bizarro e o original e criar mais brilhantes canções para chegar ao patamar de Madonna Louise Ciccone, aquela pacata senhora cabalista de hoje em dia. Ou seja: vai ter que rebolar muito. Madonna sempre foi uma artista inteligente e à frente do seu tempo, foi ousada quando era difícil ser, sempre esteve antenada com o que è novo, soube correr riscos e sempre dialogar com a arte do momento e deixar-se influenciar por ela mantendo a identidade, isso sempre ao lado de uma obra de qualidade artística relevante e consistente em sua maioria e não sustenta o cetro de rainha do pop de graça.

E por favor, não me venha comparar Lady Gaga a Britney Spears. Gaga é boa compositora ótima cantora e totalmente responsável pelo que produz, tem controle sobre sua obra, não é “artista de produtor”, alguém que dependa do produtor da moda para que sua obra seja feita. Não precisa pagar de sexy para que a ouçam. Isso sem falar no principal: tem conteúdo. Se ela errou? Claro. Até grandes gênios da música erraram em algum momento. Ela perdeu a mão, especialmente nas canções de apelo mais popular, como “Alejandro” visando o forte mercado e publico latino. Mas isso não desmerece a curta obra da moça até aqui.

Um outro  pedido, esse para o lado colorido da força: Por favor , não levem isso a sério, ok? É um PERSONAGEM? Não legitimem o estereótipo estúpido de que gay só tem purpurina no cérebro. Já ouvi falar nessa história de gente que leva Gaga a sério mesmo e já li em vários blogs discussões estéreis, e alienadas sobre o tema. Fundamentalistas Gagaístas, Isso é ridículo! Aliás, qualquer tipo de fundamentalismo é patético.

Termino dizendo aqueles que insistem nessas cercas que impedem as pessoas de conhecerem novas expressões. “Coisas do tipo, “roqueiro não pode gostar de pop”, “todo pop não presta”,” isto é que é o verdadeiro rockn’roll!”“. Nessa nossa linda província em que uma simples cor de cabelo diferente do comum ainda causa grande espanto e é motivo de sorrisos de canto de boca e expressões de desaprovação, já passou da hora de acreditar nessa idéia de séculos atrás, de segregar, guetizar sobre a justificativa de manter a pureza, sustentando a caricatura ou  de ser “alternativo”. Esqueça essas besteiras e siga os ensinamentos dos grandes mestres. Eu fico com o pensamento de alguém muito respeitado por aqui, o reverendo da sabedoria Bob Marley, que sabiamente já dizia:

“Forget your troubles and dance”.

Bob Marley já sabia antes de todo mundo. É isso aí: Esqueça seus problemas e dance!

Vida longa a Lady Gaga ou qualquer outro artista que faça diferença.

 

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Comentários (26):

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Flavia Martins

15/09/2010 às 13:33

Lady Gaga é o que estava faltando,algo diferente que fizesse as pessoas pararem mesmo que fosse para falar mal,mas daqui a algum tempo vráa outro e outras é o que faz do mundo um lugar fascinante

Rosa C.

27/06/2010 às 14:22

Nivandro, amei o texto! O "faça diferença" no final resume a qualidade do trabalho da cantora. Lady Gaga tem muita atitude, criatividade e talento musical! Chega de preconceitos! E nossa província? Ah meu caro, aqui impera a mesmice!!!!

evdrniume

21/06/2010 às 14:21

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andrei

18/06/2010 às 14:42

Belo texto ainda mais se trantando da nossa linda provincia. Para quem é fã de Bowie,Placebo,T.Rex, Gary Glitter,Mott the hoople e etc... como eu, Lady Gaga é admiravel de varios modos, principalmente no que diz respeito à retirar elementos de uma música que nos anos 60 era destinada a um publico realmente ALTERNATIVO, a exemplo de caras como Lou reed, e transpor de forma inteligente para um publico que vai de boates em L.A a barzinhos no bairro do sao raimundo. Que os ignorantes e radicais continuem a condenar como clichê sons como o da Gaga, nao sabendo eles que o clichê é essa "premissa classisista moderna" de sempre, que o velho é sempre melhor,que os anos 70 foram "isso", que os 80 foram "aquilo" e por ai vai. Vão ficar nessa nostalgia e curtindo um "movimento" que nem sequer estavam vivos para acompanhar, perdendo a oportunidade de admirar alguns artisas que fazem um trabalho no minimo relevante. Que venha o "novo" e que seja celebrado. Parabens ao JUNKIE CARETA!

m0nk

08/06/2010 às 15:02

Parabéns pelo texto, soubestes usufruir do tema, com sua competência habitual, para examinar de maneira consistente assuntos até mais importantes do que a própria gaga! Concordo 100% contigo! Gostaria apenas de expressar aqui que 'MÚSICA' e 'ARTE' não são, necessariamente, sinônimos. Se a MÚSICA, feita pela Gaga é boa ou não, é o ouvido de cada um que vai avaliar. Mas, que ninguém se engane, ela ainda está longe de fazer 'ARTE'(no real sentido da palavra)e disso não resta dúvida! O que não quer dizer que seja por falta de capacidade. O mais difícil, os holofotes, ela já conseguiu, agora é trabalhar para surpreender musicalmente tão bem quanto consegue visualmente. abraço irmão! e vamos fazer som!

Larice Maciel

06/06/2010 às 19:50

Li o texto e como sempre... Admirável! Adoro o teu estilo de expor tuas opiniões, de uma forma sutil, sendo sempre conveniente. Aposto que muitas pessoas assim como eu começaram a enxergar lady gaga de uma outra maneira... Quiçá pensar nos seus próprios bloqueios (homofóbicos).

Dot

02/06/2010 às 12:29

Primeiro deixar claro que eu sou mega fã da Lady GaGa e, principalmente, que sou a favor de toda forma de expressão e da liberdade de exressão, seja musical, visual, artística, profissional, etc... Assisti uma reportagem(na MTV mesmo!) sobre ela, onde foi comentado uma coisa que me chamou atenção. Vira e mexe, a música quebra as regras da normalidade e transcende para a anormalidade, até que essa anormalidade se enquadra na posição de normal, marginalizando outro estilo que, futuramente também fará a mesma coisa. Lady GaGa fez isso e, hoje em dia, o chocante, a loira ensanguentada, a assassina em massa que envenena um restaurante inteiro, a louca que dança numa banheira gigante, a noiva aleijada pelo namorado em nome de fama, os tipos bizarros, todos os tipos bizarros já estão se enquandrando na normalidade, na moda, na vida das pessoas. Vide o shopping dia de sábado com os fãs de Restart(que eu não condendo, quer ser assim, seja, mas se fundamente para não estar simplesmente personificando o desejo de ser outra pessoa e no futuro vire um "ex-'rockeiro' "(aspas dupla) e um atual forrozeiro). Lady GaGa tem que tomar cuidado(ou não), pois seus tipos não despertam mais terror ou choque, mas simples curiosidade e devoção.

Layla

01/06/2010 às 00:50

Sem palavras pra esse texto!!! passei uma semana pensando o que comentaria desse texto... Muito Bom! Muito mesmo! Um ponto de vista super positivo e CONVINCENTE, de uma artista tão polêmica!! Gosto Muito disso! Mostrou que ser Diferente e ousado é legal!! \\o/

.samuca.

31/05/2010 às 16:02

Texto fantástico. Admito que passei a enxergar a própria lady com outros olhos. :)

Alen Serra

28/05/2010 às 17:06

Muito legal mesmo o artigo sobre lady gaga, principalmente no tapa na cara de muitas pessoas que ainda hestorotipam o ser diferente, melhor, ser original.... Continuem assim, gostei do post e espero mais como esses.

Morgana

27/05/2010 às 13:30

Tu é gay amor! :D X É,o texto diz tudo,ngm aguenta mais tanto preconceito... XoXO

Nilminha Rocha

27/05/2010 às 12:37

Gosto da Gaga por ela ser autêntica. Ela é toda anos 80 e nao tá nem aí. Eu curto reggae roots e adoro pop. Qual o problema? Quem nunca se pegou cantando ♪ Red Wine Konvict Gaga Oh eh..♪ Beijos e juízo!

Laurinha

27/05/2010 às 12:24

AMEI O POST! Polêmicas à parte, concordo com muito do que foi dito. Não sou a MEGA FÃ de Lady Gaga, acho que ela exagera sim... Mas, no que diz respeito ao texto, eu entendi que fala sobre o preconceito do que é o novo. E ISSO ACONTECE DEMAIS POR AQUI! Uma das coisas que muito me aborrece por exemplo, são as pessoas que dizem gostar do alternativo... Tudo que não faz sucesso é o que há! PQ? Eu tive uma discussão acalorada uma vez com uma pessoa que me chamou de estúpida por gostar do som do Aero nos anos 90... AH MEU, o ouvido é meu! Esse tipo de preconceito que trava a cena aqui de São Luís por exemplo... RESPEITO É BOM E TODO MUNDO GOSTA! Mais um belo texto aqui pro nosso blog! ^^

Valéria Sotão

26/05/2010 às 18:12

Finalmente um post inteligente nesse site :D Nivandro e sua Radioteca ainda é são salvação das bandas locais. Foi a pioneira do indie rock e britpop na cidade, agora muitas fazem o que Nivandro já fazia há anos... :) Fora que o cara é poeta de primeira, compositor e mil anos luz desse povo que insiste em rotular música feita no MA de MPM... eca!

Glauco

26/05/2010 às 15:41

Olha, parabéns =D Mto bom mesmo o texto... só não gostei do termo kitsch no início do texto, que minha amiga wikipedia me ajudou a saber o que era.. E vida longa a Gaga =D Daqui a uns 20 anos ou mais anos vou ter orgulho de ter acompanhado a carreira desde o primeiro segundo xD